
Em primeiro lugar quero deixar claro que as opiniões por mim publicadas neste blog são de carácter estritamente pessoal e revelam tão somente uma posição firme relativamente a um assunto tão importante para Portugal como o são as eleições presidenciais.
Não sou analista político, nem tão pouco militante de qualquer partido político, como tal não é minha intenção exercer qualquer tipo de influência política a favor deste ou daquele candidato. Por isso considero que a participação neste blog poderá ser saudável do ponto de vista da troca de ideias e opiniões, sejam estas concordantes ou discordantes das minhas.
Cavaco Silva tem aparecido, nas sondagens que tenho visto, em clara vantagem relativamente aos restantes candidatos presidenciais. É certo e sabido que as sondagens são uma pequena amostra das intenções de voto do eleitorado português. Como tal a sua importância do ponto de vista político é relativa, dizendo pouco daquilo que porventura poderá acontecer nas próximas eleições presidenciais. No entanto olho para elas com alguma apreensão.
Cavaco Silva foi primeiro-ministro de Portugal durante 10 anos. Durante a sua governação, muitas coisas aconteceram e muitas outras poderiam ter acontecido. Muitos portugueses porventura se terão esquecido de alguns aspectos bastante negativos desse período, outros, muito novos na altura e hoje jovens eleitores, não se recordarão desses mesmos aspectos. Em primeiro lugar a economia e as finanças, tema tão caro ao professor e economista que actualmente puxa dos seus galões para se afirmar como o Messias que vem ajudar a salvar o país da crise económica e social que atravessa, num cargo onde não tem competências directas para o fazer. Mas olhemos para traz e vejamos se durante o período da sua governação a situação económica era mais saudável. Em 1986 Portugal aderiu, como sabemos, à então chamada CEE (Comunidade Económica Europeia). A partir de então muitos foram os fundos comunitários que entraram nos cofres do Estado para ajudar o país a desenvolver-se e a modernizar-se numa Europa cada vez competitiva, mas ao mesmo tempo mais unida, num esforço de afirmação perante a grande potência económica que eram (e são) os E.U.A. Muitos e muitos milhões de contos passaram então pela sua gestão enquanto responsável máximo pela política económica e financeira do país. Eu e muitos portugueses perguntar-se-ão: para onde foi canalizada tamanha soma de dinheiro? Estradas? Incentivo à iniciativa privada e à criação de novas empresas como forma de gerar emprego e melhor qualidade de vida? Grandes obras públicas? Modernização da agricultura? Poderia estar aqui a escrever um rol de possibilidades e eventualidades que nunca chegaram a acontecer.
Em relação às vias de comunicação e designadamente as estradas é certo que foram construídas. Desculpem, corrijo: mal construídas. Deixo-vos dois exemplos concretos: o traçado miserável e irregular da A8 entre Lisboa e as Caldas da Rainha construído durante os seus mandatos, e que, tanto na altura como actualmente continua a ser bem taxado para o bolso de um português de classe média: 4 euros num percurso de cerca de 70 km. IP5: o exemplo máximo de "como não construir" uma via de ligação estrutural a Espanha e à Europa. Como foi possível um líder com tamanha visão estratégica, que nunca se engana e raramente tem dúvidas aprovar a construção de tamanha aberração rodoviária? Seria tão mais caro construir uma via rápida, ou o dinheiro da Europa fazia mais falta a alguns "gulosos" que viram no "desenrasca" a melhor saída? Actualmente é a segunda estrada mais perigosa do mundo, sendo que a primeira é uma estrada transnacional que atravessa a cordilheira andina!!!!
Novas empresas proliferaram durante o período "Cavaquista". Muitas delas abriram falência, e deixaram imensas pessoas no desemprego. Os gestores e administradores das mesmas podiam (e podem ainda... Incrível a nossa legislação não é?) dar-se ao luxo de meses depois abrir nova empresa com os subsídios do Estado. Era o "empurrãozinho" para o desenvolvimento económico do país. Mais um tiro no pé...
A agricultura tornou-se, se bem se recordam, "subsídio dependente". A Europa dizia – a título de exemplo - arranquem vinha e plantem girassol. O Estado português subsidiava os agricultores de forma a satisfazer a política de Bruxelas (lembram-se da PAC - Política Agrícola Comum?). Os agricultores seguiam as ordens do Estado, mas este nunca se preocupou em certificar-se de que esse dinheiro era realmente bem gasto. Conclusão: o girassol (e outras produções) apodrecia na terra enquanto o dinheirinho fresco de Bruxelas ajudava os agricultores na compra de mais um jipezinho ou na construção de uma vivenda.
A construção clandestina, muitas vezes em zonas protegidas, proliferou como nunca durante a vigência dos seus mandatos. Os anos 80 ficaram indubitavelmente marcados pela construção desregrada de autênticos "mamarrachos", tanto no centro como na periferia das vilas e cidades portuguesas, desobedecendo por completo às mais elementares normas do Plano de Ordenamento do Território e sobretudo às normas do bom-senso. Mais uma vez uns quantos "gulosos" ficaram bem servidos com a ajuda de um Estado que perigosamente teimava em não assumir as suas responsabilidades. Cavaco Silva era o responsável pela condução desta política.
Se bem se lembram foi também durante o período compreendido entre 1985 e 1995 que apareceram uns quantos "abutres", amigos do Governo, que assumiram, muitas vezes sem competência para tal, cargos públicos mais ou menos importantes. Eram (e são, pois o vício não se perdeu com a saída de Cavaco do poder) os "clientes" e esses ditos cargos eram (são) os "tachos". O país transformou-se num enorme "tacho", onde os principais condimentos eram a irresponsabilidade e a negligência política.
A educação, como grande pilar de desenvolvimento de um país foi tratada à bastonada, fosse o assunto em questão as propinas ou as provas globais. Todos se devem lembrar concerteza da "rapidez e eficiência" com que a polícia de choque chegava ao local das manifestações. Em questão de alguns minutos tudo ficava resolvido com a táctica da repressão. Falo dos estudantes como podia falar da própria polícia que levou semelhante tratamento quando lutava por aquilo que achava serem os seus direitos.
Por fim, o fim (passe a redundância) de Cavaco e do seu governo. O "buzinão" na ponte 25 de Abril. Mais uma vez a repressão foi a arma escolhida para resolver o problema. Foi a gota de água que fez cair Cavaco. Este retirou-se de mansinho, para um ano mais tarde entrar na corrida a Belém. Esperava que os portugueses já tivessem esquecido os 10 anos desastrosos da sua legislatura, mas as imagens da ponte ainda estavam bem presentes nas suas consciências. Levou o primeiro grande castigo político ao não ser eleito presidente.
Cavaco Silva governou em tempo de vacas gordas. Não conseguiu pôr o país nos trilhos do desenvolvimento. Se assim foi naquela altura, como seria agora com os fundos europeus a tomarem outros rumos? O que seria do país hoje em dia com o Senhor "não há enganos e poucas dúvidas" ao leme?
Espanha já lá vai, a Irlanda idem, a Grécia vai no encalço de ambas. Portugal, como dizia o "outro" teve tudo mas perdeu.
Cavaco Silva é co-responsável (no meu entender, o maior responsável) pela situação difícil que o país hoje atravessa. Os apoiantes da sua candidatura são aqueles que estiveram com ele durante o período da sua governação.
Há dias vi-o, num dos debates para as presidenciais, dirigir-se aos jovens recém-licenciados, afirmando-lhes que tudo irá fazer enquanto Presidente da República para resolver a sua difícil situação. Porventura alguns desses licenciados que hoje estão numa situação complicada, ora de desemprego, ora de trabalho precário e incerto, foram os mesmos que há uns anos atrás levaram umas bastonadas para o "bem" da nossa educação.
Ahh, e não se esqueça Sr. Professor, que a sua aura de "Messias" salvador da economia e das finanças do país de nada lhe vale enquanto Presidente da República. Não apenas pelas competências inerentes a esse cargo, que não conferem o poder de intervir directamente na política económica do governo, mas também e sobretudo pelo desastre que foi o período da sua governação.
O currículo político de Cavaco está demasiado manchado para que nele deposite a minha confiança para ser o responsável máximo do Estado Português, e, por mais que os anos passem não há nada que faça apagar as ditas manchas desse malfadado currículo.
Por mim, Cavaco? Não obrigado...